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diana de hollanda
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~ 1.4.07
fogo feito de ar é uma idéia de que gosto e uma imagem que não consigo. preciso sair daqui para vários lugares, mais organizados, menos nebulosos, com o tempo também abandonados (direito a eterno retorno) no caminho. por ora: meus cotos (oficial - não sei até quando.) mais de mil palhaços no salão (eu e bruno brincando de.) ~ 5.2.07
no espelho pálidos no escuro, johnny cash em sua canção menos mórbida tenta matá-los. amanhã a quina da parede não estará disponível para o sepulcro e a buzina misturada ao grito será barulhenta o suficiente para não lembrarem; os carros na cauda do tempo apagarão com força a repetição do passado, será uma novidade: com sua canção menos mórbida johnny cash tenta matá-los. ~ 4.2.07
em vez de ir embora, tanta pressa. derrubasse minha cadeira, me xingasse mesma forma. depois mijava em mim. ~ 31.1.07
mamãe não entendeu. somente quando entrou no meu quarto. me encontrou, e o cachorrinho; é isso mesmo, mamãe, o cachorrinho. sentou, tirou-me os filezinhos do nariz, nem notou (o Homemeu) ninguém aqui fica de roupa, mamãe, quer conversar? então mamãe só de aliança chorou seu cachorrinho e conheceu meu homem, o Homemeu. experimenta, experimenta o filezinho, me apelidaram poodle, que tal, ajuda, me chama assim. mamãe me grita poodle, mamãe de cachorinho, mamãe o homem meu; muge, mamãe, muge pra mim. ~ 29.1.07
não sei dizer gosto, digo o contrário. muito mentira, fica verdade. sou forte, tenha pena de mim. correrei atrás mais uma vez não eu andarei na direção oposta subirei as escadas. forte, toma meu rosto, eu diria bate. lançaria uma proposta por que não uma chance; agiria de maneira mais conveniente com minha altura com a minha idade seria mais madura levaria o tapa na cara; forte. não me interessa. ser forte. profundamente infantil fraquejo por que não me liga por que não uma chance sem que eu precise pedir nada. ~ 6.1.07
Estávamos mal, estávamos bem diante dos que estavam pior. Quando caíam os novatos, chute na cara. Sangravam até entender, Você era feliz e não sabia. Precisamos todos passar por isso. Chutarmo-nos até entendermos que nos poderíamos chutar mais. Não o entendemos no mesmo andar, eu e os que começaram comigo. Você era feliz e não sabia. Não fui, não sou feliz; batiam-me. Lançavam-me andar abaixo, por um tempo eu entendia como é ser pior. Logo depois Não fui, não sou, não serei feliz. A cada tentativa de mudança, jogavam-me do andar de cima. Precisei de muita porrada para entender: continuaria caindo. ~ 29.12.06
~ 27.12.06
resto de comida; cárie. nada engasgado, estamos bem. borboletas, braços abertos, rios racham o rosto. alguém do sexo oposto/mesmo sexo virá nos visitar; fique espreitando a porta a fechadura a janela: alguém te deixou só. nesse instante: testa suada, pele maltratada; ou apenas monstro verde grito grito. pediu de joelhos que não o matassem, como se morresse quando viu: alguém te deixou só; fique espreitando. ~ 20.12.06
os condenados no amor sugam lirismo da ferida e se banham em pus, os condenados em vinho ácido ácidos dançam perpétuos, os condenados vivem longos, que o fracasso não perfura o corpo mas fomenta a vida. ~ 11.12.06
~ 10.12.06
(na cinelândia corri de uns tiros, quarta-feira. hoje em copacanana fui assaltada.) (são oito horas; não estou sóbria, mas acordadíssima. subi a minha rua a pé, antes o sol nasceu, no ônibus, e a baía de guanabara.) (sobre o que falta, por um instante entendi: não é dinheiro, não é ninguém, não é profissão. já entendi outras vezes, que difícil.) ~ 5.12.06
que me importa, fechem os cinemas, os espaços alternativos, a universidade, meu carro, as mãos pra mim. o céu, cai o cinza me abraça. cai o cinza, me abraça. ~ 2.12.06
~ 19.11.06
~ 16.11.06
quase é mais do que se imagina. quase certeza. quase certeza impede fogos e ressurreição; é pior que levar porrada declaradamente, é a tal da fé. ~ 15.11.06
existe realmente bola de neve funciona assim a gente lembra de nada e cada mês promete que vai se organizar lembrar do dia anterior não lembra. a gente não lembra o que foi dia anterior, esquece também o que a gente era. o equilíbrio me afronta eu o esqueço; feliz, ruim é não lembrar motivo. ~ 14.11.06
Abro a porta e lá vem ela. Sou engolido pelo corpo que não respira. Sentada na poltrona, encharca o tapete e me olha feito um bebê que fez merda. Não vou limpar novamente. Tudo está um tédio, mas você não consegue levantar o rabo da minha vida. Preparo um miojo e sento ao seu lado. Não importa o canal, é sempre o mesmo programa. Eu te amo, porra. Novamente, esse pranto ensaiado. Todo dia você chora para ouvir a mesma mentira. ~ 13.11.06
título, coisas de que me lembro sempre descr. da ação: vou apagar a luz. vou apagar a luz, apaguei, começam as coisas - isso já é fala. primeiro título menor. as coisas. as coisas bidu. casinha de cachorro. quatro. dado. marrom. fogo. carrinho. não acabam aí, fiquei com preguiça. ~ 12.11.06
but not for me they're writing songs of love, but not for me. a lucky star's above, but not for me. with love to lead the way, i've found more clouds of gray than any russian play could guarantee. i was a fool to fall and get that way. heigh-ho, alas, and also lackaday. although i can't dismiss, the memory of his kiss i guess he's not for me. he's knocking on the door, but not for me. he'll plan a two by four, but not for me. i know that love's a game, i'm puzzled just the same. was i the moth or flame, i'm all at sea. it all began so well, but what an end. this is the time a girl needs a friend. when every happy plot ends with the marriage knot and there's no knot for me. (ira gershwin, george gershwin) ~ 9.11.06
era poder que tira a possibilidade. acho que levantei para dizer isso, não quero ser poderosa. quero poder ir. também não sei se quero liberdade para construir nada. (construir nada é diferente de não construir.) tenho medo de continuar construindo nada e perder a possibilidade de construir coisas. problema: quanto mais livre, mais sem ânimo para me prender de novo. ~ 6.11.06
o que você não entende é que o poder me enjoa. se não tenho o mundo não é por impotência, sou menos impotente que meus conhecidos. (você sente pena de mim porque não domino a mesa de bar. você cita famosos, absorve espelhos, faz jus ao número que não deveria dizer nada, sua idade.) o que você não entende: deixo-me nocautear para me sentir mais fraca e ter o mundo ao meu alcance. ~ 3.11.06
~ 2.11.06
Ana plantara uma flor enquanto Pedro estivera fora. Quando ele voltasse, inda que inapto às cores, saberia. Uma flor de amor. Se a tivesse plantado no jardim, no terreno liso e desflorido do jardim, significaria outra coisa. Uma flor em evidência jamais seria de amor. Pedro, que a amava, lhe presenteara, sem subterfúgios, um buquê de rosas. Agora Ana tinha de correr para desplantar a flor. Se no jardim, significaria outra coisa. Mas assim, debaixo do tapete e dentro de casa. Num solo tão inapropriado para a fertilização de sementes. Uma flor escondida só podia ser de amor. Dela, que não o ama. Dela, que não me ama – Pedro lembraria que dera a Ana a cópia da chave. Talvez demorasse. Não é hábito revirar tapetes, exceto em caso de faxina. Talvez não se encontrasse, poderia ser encontrada no dia seguinte. Mesmo sabendo de seus horários – é impossível que Pedro volte agora – continuou se repetindo, Vai que ele me pega no flagra, melhor que eu fique. Se Pedro a flagrasse desplantando a flor, com a esperança dos corações partidos, diria Deixa aí. E a acusaria de medo, e de fuga, e completaria, Bem coisa do amor, seu constrangimento. ... Quando se esbarraram na rua, horas depois, Ana se apressou e disse, Plantei uma flor na sua casa. Pedro, que ainda não tinha visto, respondeu, É? Aliviada, Ana aplacou, Debaixo do tapete. ~ 1.11.06
vale-brinde não gosto, não gosto de pessoas, de pessoas, não gosto de, pessoas, pessoas, não gosto de pessoas, ~ 30.10.06
dói tanto minha coluna, já troquei cinco vezes de posição o travesseiro; há cinco horas estou tentando apenas o que o dorflex me dá. cansei de brincar no msn. ou minha coluna. cansei de brincar no orkut; ou minha coluna. não estou cansada de brincar, só de algumas coisas. o que faço vem sendo o contrário do que deveria, tudo bem, não tem importância, o desencontro. tem. tudo bem não tem importância tem. será que eu tô chamando certo? : desencontro ~ 26.10.06
meu pai associa respeito a idade, e idade com, sei lá, irmãos? meus irmãos projetaram vidas, chegaram na idade de projetar vida? o momento Já estou na fase de, Daqui a pouco, eu; o tempo. não me mato; quando descobri tinha clarice no meio, A vida é. A vida é - grande merda. veio o filósofo e me disse Grande merda. na época não entendi, fechei os olhos, continuei me debatendo, mas são cinco os sentidos, e não tapei a orelha como para sinopses de filmes. o que chamam de depressão é a doença da vida. problema: por mais que nada se faça, as coisas continuam vindo. (o ponto final é do fim; se não me mato, está tudo a ser construído.) engraçado, o filósofo construía com É tudo ruim; o amor era um livro de cabeceira. tem gente que constrói maldizendo a vida. arrumei um jeito de construção, tem a ver com o Carpe Diem: o dia é, não há o que contestar nem deslumbramento. não me mato enquanto vivo. não há projetos, encontrei uma maneira de construir que nem o poema do vinícius, Infinito enquanto dure, preciso apenas continuar trabalhando sem futuro - o dinheiro. amar seria bom, e que o amor destruísse comigo. ~ 23.10.06
tentei explicar que tenho o direito de não construir. outro dia me deu um sermão mais ou menos assim, Você não cuida de nada; acho que essa era a crítica. não sei se verdadeira, não sei que relevância tem. não entendo muito o verbo cuidar. cuidar não é preservar e preservar não é deixar de explorar, de gastar, de experimentar, enfim,?, não entendo muito bem qual é o erro de não cuidar das coisas, era um sermão, tenho certeza. ~ 22.10.06
o ponto de equilíbrio não está no coração. não sei de onde você inventou isso, parece com aquele amigo, o filósofo, ele dizia, Minhas peças só se encaixam assim, falava de Dois, do Par, de Nós, a diferença é que você põe tudo a perder, escreve e-mails desesperados, agride, ridiculariza; não, ele fazia isso também. mas, quanto a ele, quem pôs a perder fui eu, chato ganhar, depois que se ganha tem o quê? de qualquer maneira, não lembro de como perdi, significa que não significou grande coisa. o ponto de equilíbrio está em todos os deslizes, e mais: na gargalhada, na gargalhada. você já aprendeu a rir? se sim, sabe é impossível que o coração tenha qualquer coisa a ver com isso. resta a solidão patética e divertida, a soma de álcool e conhecidos; para nós um lembrete, terça dois por um ainda existe. ~ 19.10.06
cheguei a te levar no apartamento, subi para ajudar, naquela época já não nos falávamos bem. você ameaçava ir, eu te apagava um pouco. mas jantamos juntos. comemos no guapo loco, na barulhenta praça de alimentação do rio sul; chovia, te busquei no trabalho, demorei a achar a rua - é seguindo a do marcos -, pegamos trânsito para dar retorno antes da niemeyer, fomos às compras. o abajur coube atrás, as cobertas no porta-malas. você foi, no dia eu nem estava em casa. ~ 15.10.06
Queria estar errada, Nada do que penso que significa significa, Nada significa, Que pegássemos a estrada e fôssemos para, E abandonássemos trabalho, dinheiro, estudo, Todas as encheções de saco, Não posso pedir que me acompanhe, Vamos embora, Isso aqui, qualquer coisa, não serve para nada, ~ 11.10.06
A boa é doar inadequações para inadequados. " Fulaninho, veja só, fulaninho" ou qualquer coisa sem sentido. Serei direta. O homem atravessa o salão, alcança a cadeira, se senta, chiclete, ouve cortázar - lembra do trecho que você me mandou? sei que sim, mas não é para você que estou falando -, espera a do negro, troca o beijo pelo cuspe na boca. De quem. Uma boa, fulaninho, é você ouvir e chutar o balde. Não vai chutar. Essa história de fé cênica não interessa nem um pouco. Não me interessa, não interessa. A inadequação primeira é, Estou sempre acima, embora seja mentira. Não, a inadequação primeira é, Chute o balde. Se não chuta, vou embora, vou embora, transfiram-me do rio de janeiro. ~ 1.10.06
faço cara de mais velha - você quem insinuou. (a que viu, vê diariamente, engessou há tempos.) faço nada. a forma de criança, começo nos peitos, é de velha que se benze. ~ 18.9.06
~ 17.9.06
Presenteiem-me mais uma coisinha desinteressante. Ajustem o casaco de sua voz a um insincero “eu te amo”. Tragam-no de bandeja, para que possamos foder que nem frangos. Estou ansiosa. Por favor, não se esqueçam de que nesse dia a festa começará cedo. Nada de atrasos. ~ 11.9.06
Como adiando blefe, levantou o olhar por um segundo. Tudo perdido, inda que a mesa fosse sua. Do mundo vivem escorrendo coisas. Não é questão de lucro. Aquele casamento está cheio de traições não consumadas. Vamos foder direito. E, apressando a miséria, fincou um par de dois na orelha do adversário. ~ 10.9.06
~ 6.9.06
A história do olho apareceu hoje de novo. Eu estava dormindo, é quando me lembro do que deveria estar estudando.Também do meu orientador, que me dá pânico como a professora de Educação Física do colégio. Quase deixei os estudos por causa dela e da última vez em que o encontrei chorei um bocado. Quero largar tudo - sorte de quem pode. Dirigir é fingir saber de alguma coisa, odeio fingir. ~ 3.9.06
o robertão começou a tocar, lembrei, você pulando no meio da sala, tem a ver com a dor, no carro era até divertido. só preciso me compenetrar, meu bem, nunca vi alguém tão incapaz de compreender que meu amor é bem maior que tudo o que existe, mentira, meu bem, mentira, eu não mais, você me bate me leva a sério, tchalala, uh uh, vou mudar o cedê, tchalala, uh, uh, vou mudar o cedê, uhhhhhhhhh, meu amor, tudo em volta está deserto, tudo certo, tudo certo como dois e dois são cinco, tchalala uh uh, vou mudar o cedê. ~ 28.8.06
O cão corre para o homem à espera. O homem lê ou coça o saco nalguma praça decadente. O cão acaba de ser chutado por este homem (seu dono), e volta porque acredita: ele está à minha espera. Não se lembra do chute, mas das cócegas que recebeu em sua barriga. O cão adora cosquinha. O homem espera. Não pelo cão. O cão é um animal, substitui-se facilmente por uma pantufa. Talvez a pantufa não funcione tão bem, de repente uma chaleira. Chaleira tampouco, mas um hargômetro. O dicionário não conhece a palavra hargômetro, o que o agrada muito. O homem adora filosofia. ~ 4.8.06
o lado esquerdo me obrigou a levantar da cama e a tomar atitudes. como fisioterapia não é propriamente um desejo, vou cumprir. na sétima sessão (são dez no total), concluirei que estou ótima. volto apenas sobre o pé curado como um saci. a respeito do pé, dos pés, não sei mais pisar. num conto do otto lara resende, o protagonista esquece como dormir. meus sapatos estão tortos porque estou torta. pelas dores sei que, se eu tivesse memória, não bastaria. lembrete para amanhã: o blog deve se chamar algo como boas notícias. ~ 1.8.06
Não entendo por que continuo incapaz de cumprir minhas metas. Os bilhetes pela casa insisto em não levar a sério. Devo estar achando muito divertido. O que me escrevo vai para o lixo, eu mesma jogo, não dou a mínima. Volto aos lugares insuportáveis. Gostaria de experimentar o prazer que sinto. ~ 27.7.06
~ 21.7.06
~ 11.7.06
Viver e inventar. Eu tentei. Devo ter tentado. Inventar. Não é a palavra certa. Tampouco viver. Não importa. Eu tentei. Enquanto dentro de mim a fera da severidade zanzava para cima e para baixo, rugindo, rasgando, rapinando. Eu fazia isso. E completamente sozinho, bem escondido, fingia de palhaço, sozinho, hora após hora, imóvel, geralmente de pé, embasbacado, gemendo. Certo, gemer. Não conseguia brincar. Eu girava até ficar tonto, batia palmas, corria, gritava, me via ganhando, me via perdendo, comemorando, lamentando. Então de repente me atirava sobre os brinquedos, se houvesse algum, ou sobre uma criança, para transformar sua alegria em lamentos, ou fugia, me escondia. Os adultos me perseguiam, os justos, me pegavam, me batiam, corriam atrás de mim até que eu voltasse para o meio, para o jogo, a diversão. Pois eu já sofria das agruras da severidade. Esta tem sido a minha doença. Outros nascem sifilíticos, eu nasci grave. E gravemente lutei para não ser mais grave, para viver, inventar, eu sei o que quero dizer. Mas a cada nova tentativa eu perdia a cabeça, corria para as sombras como para um lugar seguro, para o colo dele que não pode nem viver nem agüentar a visão de alguém vivendo. Eu digo viver sem saber o que é isso. Eu tentei viver sem saber o que estava tentando. Talvez eu tenha vivido, afinal, sem saber. Por que será que estou falando disso. Ah sim, para aliviar o tédio. Viver e causar a vida. Não há por que condenar as palavras, elas não são mais ordinárias do que aquilo que querem vender. Depois do fiasco, o consolo, o repouso, eu começava de novo, tentar e viver, causar a vida, ser um outro, em mim mesmo, em um outro. Isso tudo é tão falso. Não há tempo para explicar agora. Eu começava de novo. Mas pouco a pouco com um novo objetivo, não mais para ter sucesso, mas para falhar. Nuance. O que eu buscava, quando me debatia para fora do meu buraco, e então através do ar penetrante em direção a uma dádiva inacessível, era o arrebatamento da vertigem, o deixar fluir, a queda, o abismo, a recaída na escuridão, no nada, na seriedade, em casa, nele que sempre me esperava, que precisava de mim e de quem eu precisava, que me pegou em seus braços e me disse que ficasse com ele sempre, que me deu este lugar e tomou conta de mim, que sofreu sempre que o deixei, que muitas vezes fiz sofrer e raramente satisfiz, que nunca vi. Aí vou eu perdendo a calma novamente. Minha preocupação não é comigo, mas com um outro que está muito abaixo de mim e que eu tento invejar, e cujas crassas aventuras posso contar, afinal, não sei como. De mim mesmo nunca pude contar nada, tampouco viver, ou contar algo sobre outras pessoas. Como poderia, que nunca tentei? Mostrar-me agora, a ponto de desaparecer, ao mesmo tempo que o estranho, e pela mesma dádiva, isso não seria uma última gota qualquer. Viver, então, o tempo suficiente para sentir, por trás das minhas pálpebras fechadas, outros olhos se fecharem. Que final. trecho de Malone Morre, Samuel Beckett - (a tradução é do pedro rocha de oliveira) ~ 16.5.06
1. Mesmo quando me saboto, estou a meu favor. Minto pra qualquer um dos lados. Sim ou não é a mesma besteira. O tipo de prazer, doído ou não, que é diferente. O prazer não doído dói também, perco tempo mentindo. Perderia o tempo de qualquer maneira, não perco nada. 2. De metade do que faço não preciso. De dois terços do que faço não preciso. Muda pouco se me deito e ignoro o dia. Também de estar deitado e apático não preciso. De noventa por cento do que faço não preciso. A singularidade das coisas não me comove; de inventar que me comove eu preciso. 3. Quando não quero música, ponho silêncio. Se quero sempre, nem sempre a música que quero eu conheço. Não sei se tem a ver: Vez por outra pergunto: Como se faz alguma coisa? Se faço sempre, minha impressão é de que estou sempre fazendo nada. 4. O meu sonho preferido é Jogo fora o tempo; com esforço, posso mudar. Já me esqueci de que mudei e deu no mesmo. Então volto a perguntar, Como se faz alguma coisa? O que você está fazendo? O meu sonho preferido é Estou fazendo pouco; com esforço, posso melhorar. Já me esqueci de que melhorei e deu no mesmo. (hoje outra vez não fiz nada. não sei como é de outra forma. conheço pessoas que fazem isso e aquilo. se estivesse no lugar delas, fizesse muitas coisas, diferentes das que já experimentei, e entre si, e das que vou experimentar, se estivesse o dia inteiro ocupada, e me orgulhasse disso, ainda assim, desconfio, não estaria fazendo nada.) 5. Continuarão sendo apenas coisas, as coisas da vida. Não sei por que me forço a esquecer que já aprendi tudo isso. Por que me debato, procurando salvar-me, de que poderia salvar-me? eram essas coisas, apenas essas, as coisas da vida. Poderia estar bem, não me esquecesse da impossibilidade de ser feliz; poderia estar bem, vivendo por aí, somente vivendo, somente as coisas da vida. ~ 10.5.06
Quando Carlos decidiu cair, não o fez por dor. Se houvesse pelo que sofrer, abriria um sorriso de consolação. Carlos caiu porque se lançara o quanto podia; descobriu que na vida só se morre após matar-se inúmeras vezes. ~ 22.4.06
Os pêlos secaram após os dois primeiros dias. Quem passasse perto veria um tufo do rabo sobressaindo à pedra - o bicho morrera atrás dela. As moscas descobriram logo de início o animal morto; eram amigas da raposa e, sei agora, inimigas também. Com os papos pequenos não seriam capazes de arrancar mais que sua orelha. Tentaram a perna. O tufo ultrapassava em pouco o contorno da pedra, com o aspecto de algo úmido que se acabou de secar. E do sangue já haviam secado há alguns dias, os pêlos que permaneciam negros. ~ 9.4.06
“Não há no mundo o que eu não domine”, pensou mais uma vez. Agradava-lhe discursar aos outros acerca de (sua) vida. Inexistia assunto mais fascinante que (seu) caráter. acreditava ser Deus. Perambulavam por aí outros com semelhante convicção. Pretensiosos; não existia quem possuísse talento para tanto senão ele. ~ 28.3.06
Fulano existe pra fazer tipo. O tipo de fulano faz sucesso. Fulano finge que sente, pois isso finge o poeta - fulano sabe. Fulano agora é gênio, escritor, o caralho a quatro. Diz por aí que não vive sem arte. Fulano não arta porra nenhuma, mas. O mundo aplaude. | |